Como impressionar um anjo
Uma história sobre erros de comunicação celestiais e milagres arquitetônicos
Quando eu contei pro meu amigo Segatti que ia me mudar pra Normandia, ele me respondeu com uma mensagem impregnada da sensibilidade poética que apenas Segatti é capaz de conjurar:
O tal castelo pica em questão atende pela alcunha de Mont-Saint-Michel. Apesar de não ser um castelo, e sim uma abadia fortificada, ele merece mesmo o adjetivo: 1
Se a sua primeira reação ao ver essa imagem foi se perguntar “quem foi o lunático que teve a ideia de construir uma abadia e um vilarejo inteiro no alto de um rochedo isolado, numa ilhazinha de maré, no meio de uma baía costeira sujeita a inundações regulares?”, saiba que você não está só: eu me fiz exatamente essa pergunta quando vi uma foto do lugar pela primeira vez.
Consta nos autos que o responsável por essa ideia genial não foi nenhum engenheiro embriagado, mas sim o Arcanjo Michel – ou Miguel, em bom português. Sim, o anjo da Bíblia. Reza a lenda que, lá pelo ano de 708, ele apareceu pro bispo de Avranches e ordenou, com toda a sua diplomacia celestial, que ele construísse um oratório dedicado à sua Santa Pessoa. E não em qualquer lugar: bem no topo daquele rochedo inóspito ali, que na época se chamava – muito apropriadamente – Monte Tumba.
O bispo deu uma boa olhada pro lugar – completamente desconectado da terra firme do continente, coberto de arbustos e habitado apenas por animais selvagens e eremitas – e decidiu que o Miguel com toda a certeza tinha errado a mensagem. Não, mais grave ainda: aquilo era certamente uma armadilha do tinhoso, e ele não se deixaria ludibriar. Eu entendo a lógica do bispo, porque também sou ótima em inventar qualquer desculpa pra não ter que fazer algo que eu não quero fazer.
Em todo caso, diante da desobediência, Miguel foi obrigado a repetir a mensagem três vezes pra afirmar que era aquilo mesmo. Na terceira, já sem paciência, ele apertou um dedo sagrado flamejante na testa do homem, deixando um buraco na pele. O bispo enfim compreendeu que o anjo não estava pra brincadeira e foi depressinha construir o tal oratório.
Embora eu possa questionar os métodos do Arcanjo Miguel, admito: os resultados são difíceis de ignorar.
Uma vez instalados na nova casa, eu e o senhor meu cônjuge partimos rumo à fronteira entre as regiões da Normandia e da Bretanha, o exato ponto do mapa francês que o anjo escolheu a dedo pra assentar sua obra. Esse detalhe geográfico era irrelevante à época, mas hoje é base pra uma pequena guerra regional: bretões e normandos brigam até hoje pra reivindicar a paternidade do Monte. O debate é acalorado, inflamado – e completamente inútil, como todo bom debate cultural tem que ser. (Spoiler: o Monte é normando. Sinto muito, bretões, eu não faço as regras. Favor dirigir quaisquer reclamações ao Arcanjo Miguel em prece.)
Avistar o Mont-Saint-Michel ao longe pela primeira vez é uma experiência difícil de traduzir em palavras. Eu já tinha visto fotos, claro. Dezenas. Mas foto nenhuma te prepara pra ver o negócio ao vivo: aquele majestoso amontoado de pedra brotando do meio do nada como se tivesse sido conjurado por um arquimago do urbanismo medieval, um monólito ornamentado saído de um filme de fantasia do Peter Jackson em colaboração com o Discovery Channel.
O mais fascinante, pra mim, é tentar imaginar como, com as ferramentas e conhecimentos disponíveis há séculos e séculos, alguém conseguiu construir aquele negócio. Ali. Num rochedo isolado que vira ilha quando vem a maré alta e que até hoje desafia engenheiros modernos com sua geografia traiçoeira. Fico pensando no canteiro de obras no início, os pedreiros, marceneiros e escultores de pedra perplexos, e o bispo tentando explicar a demanda divina: “não, gente, eu juro, tem que ser aqui mesmo, o arcanjo insistiu!”. Só consigo concluir que, pra erguer algo assim, foi preciso mais do que fé: foi preciso teimosia, coragem, visão – e um certo grau de loucura sagrada.
Nesse tipo de visita histórica, acho sempre difícil evitar um certo devaneio clichê – aquele pensamento anacrônico que escorrega da boca antes mesmo de a gente conseguir detê-lo: “Hoje em dia não se constrói mais esse tipo de coisa.” Sim, eu sei: há razões perfeitamente racionais e socioeconômicas e urbanísticas e ecológicas e sei lá mais quantas “icas” pra que a gente tenha deixado de erguer abadias em topos de rochedos. Estou ciente. Mas diante de um negócio colossal, improvável e belíssimo como o Mont-Saint-Michel, você quer que eu faça o quê? Celebre o advento do concreto pré-moldado? Louve a Revolução Industrial? Reflita sobre os benefícios da padronização das plantas arquitetônicas nos conjuntos habitacionais do pós-guerra? Ah, dá um tempo.
Esse é justamente o tipo de ocasião propícia à romantização. A ocasião que convida aquele bom e velho “ah, os tempos mais simples” – como se alguém nos séculos passados estivesse de fato vivendo uma vida simples, no meio de guerras, pestes, jejuns e penitências. É óbvio que não era simples. Mas o filtro sépia do passado torna tudo mais épico, mais heróico, mais digno de ser suspirado. E suspirar faz bem de vez em quando.
Subi a ladeira que leva até o topo do Monte cheia de entusiasmo pra enfim explorar a famosa abadia que o Arcanjo Miguel ordenou que fosse construída em sua própria homenagem, sem nenhuma consideração logística. E, olha: ela é mesmo linda. Os arcos, as abóbadas, o claustro, as escadarias, os corredores impregnados de tempo. Passei por todos os cômodos de queixo caído, como manda a cartilha do bom turista. Foi só no final da visita, aquele momento em que a gente já está preparando o coração – e o bolso – pra enfrentar a lojinha de souvenirs, que a realidade me deu um pequeno chacoalhão.
Ali, na última sala antes da saída, estavam elas: quatro maquetes mostrando as etapas de construção do Mont-Saint-Michel. Vou deixar você ver por si mesmo antes de fazer qualquer comentário:




Confesso que fiquei um minutinho imóvel, só olhando pra primeira maquete – essa que retrata uma casinha solitária no topo do rochedo. De alguma forma meio estúpida, ela me pegou desprevenida. Não me entenda mal: é claro que eu sabia que aquele feito arquitetônico monumental não tinha se materializado ali pronto e grandioso do dia pra noite, e que ele precisou começar de algum lugar. Ver o início do Monte não foi nenhuma grande revelação, mas foi um lembrete. Um “ah… é verdade, né?”
O fato é que, quando a gente contempla uma obra pronta, o nosso primeiro instinto não é refletir sobre o processo, o tempo que ela levou pra chegar à sua forma final – é simplesmente pensar “uau!” e pronto. A imensidão da coisa esmaga a cronologia.
E não é só isso. Em geral, temos uma tendência a imaginar que grandes resultados são sempre fruto de um plano genial traçado de antemão. Mas o Mont-Saint-Michel que conhecemos hoje não foi imaginado assim desde o início. Não houve um grande projeto, um plano-mestre cuidadosamente desenhado, aprovado pelo Arcanjo Miguel em três vias, com cronograma e orçamento previstos antes de assentar o primeiro tijolo. O homem que começou a obra não tinha a intenção de construir uma abadia magnificente naquele momento – só um modesto oratório.
O resto veio devagar, como tudo que dura: um cômodo a mais aqui, uma torre ali, uma escadaria, uma muralha, um claustro, uma casinha aos pés do templo, e outra, e mais uma. Tentativa e erro, adição e ajuste através de séculos e séculos inteiros. Milhares de seres humanos nasceram, envelheceram e morreram ali sem ver o Monte “pronto”, sem testemunhar o estágio final da proeza arquitetônica.
O “grande feito” é uma ilusão. Todo grande feito é, na verdade, uma soma de pequenos feitos – fragmentados e incrementais.
Talvez eu esteja filosofando demais. Talvez a subida da ladeira do monte tenha me dado um pouco de hiperventilação espiritual. Talvez seja o Arcanjo Miguel tentando se comunicar comigo através da língua universal das maquetes. Talvez. Em todo caso, o que ficou depois da visita foi a reconfortante sensação de lembrar que até o Mont-Saint-Michel — o Mont-Saint-Michel!!! — começou como uma casinha tímida no topo de uma pedra solitária.
Não é preciso ter tudo resolvido pra começar. Não é preciso ver o fim pra dar o primeiro passo. Às vezes, a gente só precisa mesmo é da coragem de subir o rochedo com algumas ferramentas no alforje e fé o bastante pra acreditar que, mesmo sem saber exatamente o que estamos fazendo, talvez algo vá crescer dali. Algo que valha a pena. Algo que um dia, com sorte e persistência, quem sabe vire um castelo bem pica.
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BÔNUS pra você que ficou até o final!
Você acha que é só no Brasil que essas lojinhas de souvenirs em lugares turísticos vendem aquelas cachaças de nomes engraçadinhos e duvidosos? Pois eis aqui as melhores bebidas sem-vergonha do Mont-Saint-Michel!
Agora você já sabe o que comprar de presente pros seus entes queridos quando vier visitar o Mont-Saint-Michel. Por nada, o prazer foi meu! Até a próxima!
Créditos da imagem: Monte Saint Michel Por Amaustan. Foto: 2018 Licença: CC BY SA 4.0








Oh coisa boa de ler…
Fui nesse cantinho de mundo em 1998, a primeira olhadela foi exatamente isso: “olha lá, o castelo pica !!!”. Okey, tenho 58 anos, foi outro vocabulário, também fálico, mas o sentido é o mesmo !
Quantos sorrisos aparecem no caminhar dos teus textos: “… apertou um dedo sagrado flamejante…”; Peter Jackson e Discovery juntos (que delícia !!). E sim, tudo “impregnado de tempo”. Bateu saudade. Sobre as maquetes, elas pulam de “siècles” com um estalar dos dedos. Imagino o pessoal trazendo material de construção e esperando a maré baixar. O mestre de obra (tataraneto do bisneto do primeiro deles):“Pronto, corram e voltem para pegar mais !!”
E finalmente a phylo para guardar:
“O grande feito é uma ilusão. Todo grande feito é, na verdade, uma soma de pequenos feitos - fragmentados e incrementais”
Lendo, lembrei de quando conheci A Sagrada Família. Embaixo da igreja, em um setor menos visitado, tem uma placa com todos os arquitetos que chefiaram o projeto depois do Gaudí. Na hora eu não soube explicar porquê comecei a chorar. Acho que foi a emoção de pensar na vida daqueles homens, no trabalho daqueles homens, na devoção daqueles homens. Uma vida inteira dedicada a um projeto, a uma visão, a um ideal que começou muito antes deles e continua muito depois deles. Aquilo que permanece tem uma beleza intrínseca. Nós observamos e até tentamos alcançar, mas sempre parece que faltam palavras precisas para dar conta de expressar o peso do tempo.